Amar não é para todos

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Amar, do latim amāre, define-se como “Acção de gostar ou adorar; ter carinho e amor a; estimar muito a; bem-querer; Almejar ou desejar; Admirar ou idolatrar; venerar; Estar apaixonado por”.

É impressionante a quantidade de difíceis conceitos que são necessários para justificar a definição da palavra “Amar”. Muito pouco nos diz, muito menos nos transmite. Na verdade, duvido que alguma vez o acto de amar pudesse ser descrito assim de forma linear, como se de um hobbie se tratasse. E, o que é certo, é que passamos grande parte da nossa vida em busca de uma definição, de regras, de limites que nos situem neste mundo tão grande que é o Amor.

Após vários anos de estabilidade dentro de uma pequena bolha formada pelas primeiras pessoas que amamos, que entram de forma inesperada, sem avisar, na nossa vida, os nossos pais, irmãos, avós… entendemos que já é tempo de sair da zona de conforto e explorar novas experiências com outrém que nos traga algo de novo. Focamo-nos em encontrar a relação que sempre desejámos e a pessoa certa com quem partilhar a nossa vida. Alguém que nos proporcione momentos de prazer. Que nos faça querer partilhar mais e mais, cada vez mais, até sermos um só. Queremos amar alguém e ser amados.

No entanto, ironicamente, ao atingirmos o nosso objectivo, muitas vezes, sentimos um vazio. Um vazio gigante.

Um vazio que surge quando estamos em casa, no trabalho, num café, numa discoteca, no trânsito, sozinhos ou rodeados de gente. Um vazio que nos arrefece a alma, de tal forma, que damos por nós a olhar para trás e a questionar “Mas o que é que eu fiz de errado? Quem sou eu hoje? Onde está aquela criança carregada de sonhos e projectos que tanto tinha para fazer?”.

Ao olharmos para trás nada de errado vemos. “Provavelmente se me focar mais na carreira, se quebrar a rotina… não, talvez o amor tenha mesmo esgotado”.

Talvez o amor nunca tenha existido. A paixão surgiu, o prazer cegou, a diversão cresceu. Tudo foi feito. Foram descobertos sentimentos nunca anteriormente sentidos… foi descoberto o sentimento de se ser amado, desejado, importante.

Finalmente a nossa vida tem um sentido, temos objectivos concretos, somos únicos e especiais para alguém. Mas… onde está o “eu” em toda esta história? Não está.

Grave, muito grave. É como se nada até ali, até ao momento em que nos “apaixonámos”, valesse a pena ou fizesse algum sentido.

Não há amor mais importante que o amor próprio. O que nos torna únicos, especiais, importantes e o que faz com que a nossa família e amigos e todas as pessoas que nos rodeiam diga “Isso é mesmo à Rita! Isso é mesmo à Tiago!” é o significado que damos à nossa pessoa e a importância que damos ao que mexe connosco. Desde o dia em que somos deparados com um universo novo, cheio de estímulos, com uma confusão inexplicável, onde apenas o que nos conforta é o calor e o odor calmante da nossa mãe até ao momento final das nossas vidas, nós alimentamos algo, nós contribuímos para um grande projecto chamado “Eu”. Não há projecto maior e mais difícil do que a formação de um carácter, isso é certo.

Não é possível amar alguém quando não conseguimos amar-nos a nós próprios. Não é possível enumerar pontos fortes e fracos de alguém quando ao olharmos para nós só vemos uma nuvem negra ou uma passadeira cheia de flashes. Não conseguimos ser respeitados quando não nos damos ao respeito, fazer exigências quando, na verdade, acreditamos que não temos o que é preciso para as merecer. Nunca iremos mudar se não percebemos que estamos errados pelo simples facto de não nos conseguirmos auto-avaliar, sendo que apenas nos importa o que nos é dito por quem está de fora.

Isto, meus caros, é um espelho… um espelho que reflecte a nossa sociedade actual. Sociedade essa alimentada por valores e lições de moral “pré-feitas” e clichés, onde se tomam medidas para evitar a queda ao invés de serem colocados capacetes para evitar grandes estragos, sendo que quando na verdade alguém cai… não se levanta sozinho porque nunca caiu antes. Sociedade que não conhece o caminho porque já nasceu no destino e que, por esta razão, dificilmente pode tomar escolhas por si e voltar atrás. É uma sociedade perdida, no espaço e no tempo, sustentada por quem outrora já muito amou, já muito caiu, já muito aprendeu.

Amar não é para todos. É para aqueles que têm orgulho das suas origens. Para aqueles que têm orgulho de ser quem são, independentemente do olhar crítico de quem os rodeia. É para aqueles que não têm vergonha. Para aqueles que não têm medo. É para aqueles que reconhecem o que têm, de bom e mau, e usam isso para evoluir em vez de passarem a vida à procura de alguém que faça todo este trabalho por si.

Estes são os verdadeiros apaixonados. Apaixonados pelos seus. Apaixonados pela vida. Apaixonados pelo seu “Eu”.

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